Nesta altura da vida, altura difícil de alcançar, sinto falta de pessoas, do meu trabalho, dos meus filhos ainda crianças, de momentos e mais momentos, de tanta coisa… Mas a vida prossegue. O passado afastado e o que se faz ainda presente ocupam permanentemente a nossa memória. E como! Mesmo a memória já um tanto apagadinha.
Nos dias que correm, vou sentindo mais e mais a falta de conversas, animadas, interessantes, com pitadas de humor inteligente, que me agradavam tanto, que me prendiam em algum bar da vida, às vezes por horas. Nenhum compromisso a me preocupar, a merecer uma consulta ao relógio. Deixava a vida me levar. Como é prazeroso usufruir tais momentos. Zero para preocupações, aborrecimentos. Minhas finanças? Não tenho dívida alguma. Pagamentos em dia. Então é só controlar a grana. Beber um chopinho com os amigos, quando ocorrer uma oportunidade, dá sim. Ele não pode faltar nestes encontros. Figura essencial.
Ah! Os papos, as conversinhas que mantinha, me soltavam a fala e os ouvidos (utilizo aparelhos auditivos!) e até as risadas espalhafatosas. Mas não era qualquer papo. Política não entrava em nossas falas. Só dava desencontros. E queríamos encontros, com divergências que nos acrescentavam na visão do homem. Sempre preferi o tête a tête com um só amigo ou amiga, ou com dois amigos do peito. Conversas soltas, pois soltos nos sentíamos, confiança recíproca, papeando espontaneamente sobre o mundo, até sobre nossa intimidade. Muito bom mesmo nos sentirmos livres, soltos, para conversas abertas, sem melindres, algo a se assemelhar a uma terapia, deve ser assim, penso, porquanto nos reuníamos até para ajudar ou consolar o amigo ou amiga, com uma reflexão que julgávamos poderia ser útil. Nenhuma sombra do arraigado autoritarismo que permeia as relações humanas.
Sabemos que estes encontros na vida não são frequentes. O trabalho, a família, a saúde, até a não disposição naquele dia para conversas. Podemos lanchar com uma pessoa e ficarmos quase todo o tempo nos encolhendo. Nada de diálogo. Como também dividirmos os chopes com uns cinco ou seis colegas e nos divertimos muito. Acontece. As companhias são decisivas, assim como o nosso estado de espírito naquele dia.
Certamente a minha idade avançada pesa para participar agora, com a frequência costumeira em tais eventos, além da perda sofrida de preciosos e sempre presentes amigos. Sinto falta, no entanto, das conversas frente a frente, em lugar agradável. Eu sei, todos sabemos que, nos tempos atuais, no dia a dia, há a presença permanente do celular. Raro a pessoa que não tem o seu aparelho, tão útil na comunicação rápida, imprescindíveis que se tornaram para muitas e muitas atividades profissionais. Mesmo para os muitos contatos diários e para ir buscando mensagens ou vídeos postados no revolucionário aparelhinho. Nada contra ele. Eu tenho o meu. Usado, é certo, mas não a cada minuto. Sua onipresença contribui certamente para os bate-papos estarem em queda. Também o receio de sair de casa, a falta de grana e de cuca boa em certos dias. A vida como ela é
A cervejinha em casa, bem gelada, tomou em parte o lugar daquele bar algo encantado, frequentado por pessoas interessadas naquela conversinha animada, com a presença forte de certo humor a divertir os que ainda marcam lá a sua presença.
Eis, pois algo que quase não faz parte de minha vida atual, em seu dia a dia. Triste, sabe? O simples movimento das pessoas no bar, algumas das quais acabamos conhecendo, já nos alegra. O garçom que habitualmente serve à nossa mesa vai se tornando nosso velho e querido amigo. Zé, solta um terrivelmente gelado, porque senão não capricho na gorjeta. Como as amizades ali se formam? Cada um se entregando, no seu falar e no seu ouvir, as pessoas com que passamos a conviver numa boa.