A primeira aula

Como esquecer a primeira aula ministrada, logo no ano seguinte ao ter me licenciado pela antiga e nunca esquecida Faculdade Nacional de Filosofia? Começava, assim, a concretização de um dos sonhos da minha vida: ser professor! E iniciava com uma aula justamente no colégio em que estudara os antigos ginasial e científico, numa turma de primeiro ano do ginásio. Sala? Aquela em que fui aluno ao ingressar no colégio. Maravilhosa coincidência. Que emoção!

Nervoso, pouco concentrado na aula a ministrar, pisei naquela sala, com alunos de seus onze anos. Olhei imediato para a carteira em que sentara durante um ano, me lembro bem! Agora ocupada por outro jovenzinho. Baixinho e magrinho como eu era. Colégio novo para mim ao principiar a profissão que marcaria fortemente a minha vida. Porém, velho conhecido, de memória ainda viva, fundamental na formação deste ser humano.

Disciplina rígida encontrei no colégio São José, localizado na minha Tijuca, bem próximo da rua em que então morava. Embora tivesse sido um bom aluno, cedo pude constatar que a Matemática, a Física e a Química não constituiriam um campo de estudo que viesse a ter peso na escolha da carreira por que optasse. Sempre me mostrei mais inclinado e interessado pela História, pela Geografia e, mais tarde, pelo Português. Por que só mais tarde, já no curso científico? Não tive, na verdade, professores que me incentivassem a ler e a escrever. Verdade, verdade, entrei para a faculdade tendo lido pouco e escrevendo com muitas dificuldades. Pudera, com a obsessão do erro que me era passada! Afinal, qual a forma certa? Insegurança só!

Tinha, pois, de mudar a orientação do ensino de Português, porque então passava a ser responsável em minhas aulas. No primeiro contato com os meus alunos, perguntei a eles o que, no inicio do ginásio, esperavam do ensino da língua portuguesa. As respostas dominantes se inclinaram para o escrever sem erro, escrever certo. Porém, dominava na época, em muitas escolas, a orientação que propunha uma atividade com a atenção apenas voltada para o emprego de algumas palavras e construções para serem corrigidas ou não. Um uso que não fosse da chamada norma culta era às vezes o suficiente para o aluno receber uma nota baixa, desconsiderados outros aspectos do mesmo texto, como a coerência, a adequação, o vocabulário empregado.

Mas como seriam as minhas aulas? O corrigir textos era uma prática muito comum na época. Livros iam sendo publicados com esta orientação, até por autores respeitáveis. Fui mostrando as vantagens de escrever textos, no lugar de procurar corrigi-los. Afinal a linguagem é uma atividade, um agir linguístico livre e finalístico. Por isso devia ser atividade constante deles o exercitar a escrita, com finalidades diversas, como expor, sem número de linhas arbitrariamente fixado, sobre um acontecimento recente de repercussão pública. Escrever poucas linhas durante algum tempo. Sentirem-se eles mais soltos na escrita é um ganho muito importante. E o escrever só podia se concretizar sobre um assunto ou uma situação do domínio deles.

Durante algum tempo, consegui que escrevessem textos de poucas linhas, sobre assuntos que teriam o que dizer, certamente. Um parágrafo que fosse. Sempre enfatizando que queria a opinião deles, ou seja, que assumissem a autoria de texto que tinham escrito. Como é seu recreio no colégio? Já fez amigos este ano no colégio? No início do ginásio, está com muitas dificuldades nas aulas? Ficou evidente que a escrita deles ficava mais solta. Comentava alguns textos com a turma. Não podia ser mais claro, comentando o texto de um aluno, ante esta ocorrência textual? Não podia evitar esta repetição? Esta palavra não pode ser substituída por outra mais precisa? A reação da turma, ante tal agir pedagógico, me parecia favorável.

Claro que a gramática tinha suas aulas, começando seu ensino com a estrutura da oração, com exemplos bem acessíveis, utilizando de uma metalinguagem restrita apenas aos termos sujeito e predicado.

A relação com minha turminha foi se estreitando com o correr das aulas. Relação fundamental para uma aprendizagem realmente proveitosa. Necessário, tinha minha longa experiência de aluno, nos vários níveis do ensino. Quais os professores que mais me marcaram ao longo da minha escolaridade? A competência do mestre e a sua exposição aos alunos, com o empenho de estar sempre numa relação aberta com eles.

Penso que comecei bem meu magistério. Durante aquele afastado ano me entrosei com a turma de garotos. Ficava bem motivado nas aulas. Ouso afirmar que procurei ser um professor motivado, pois gostava mesmo, quase na maioria das turmas, de ser professor. Nem tudo, no entanto, foi sempre tranquilo na sala de aula. Numa turma de alunos que frequentava um curso técnico, de nível médio, turma praticamente de adultos, que, digamos, não aceitava as aulas de Português, tive enormes dificuldades com a atitude, desrespeitosa, agressiva mesmo, dos alunos e alunas. Tentei com aulas bem diversas, sem resultado. Abandonei a escola. Não havia outra saída para conter o meu desgaste. Que saudade daquela primeira aula e daquela primeira turminha. A primeira aula a gente não esquece. No meu caso então!

Com aulas em diferentes níveis, do ginásio à pós-graduação, asseguro que fui muito feliz, realizado, como professor, desde aquela primeira aula, que sinalizaria já um caminho muito importante na minha trajetória de vida