O palavrão

Voltar a cronicar com o palavrão?  Por que logo com o palavrão?  Podia ser uma palavrinha, uma palavra doce, de paz, enfim. Sinal dos tempos belicosos? Sociedades em permanentes e diversificados conflitos?  Não, então, à palavra pura, que não ofende, não agride? Pois é, ontem mesmo, ante certas dificuldades por que passava, soltei uns sonoros palavrões. Estava sozinho. Condição, no caso, ideal para meus desabafos. Aqueles palavrões conhecidos por tanta gente. Não tive como evitá-los.  Nem queria, na verdade. Me valer deles aliviou meu estresse. Em geral, isto se dá com frequência. Na fala mais espontânea, mais propícia a recorrer a certas palavras, digamos, rudes, grosseiras mesmo.

E por que não me socorrer destes vocábulos, ainda mais em contextos sociais com menos censuras? Certamente porque seu emprego se tornou nas sociedades letradas índice bem generalizado de má educação. Logo, evitá-los, impõe-se como uma norma social. O valor de longe mais recorrente dos palavrões numa sociedade letrada é exatamente este: termos denotadores, ainda mais quando recorrentes, de uma baixa condição cultural.

A utilização destas palavras, não se nega, ainda mais em falantes de bom domínio da língua, pode ter um valor expressivo, quebrando a expectativa de um leitor ou de uma pessoa próxima, ao se falar. Dois vizinhos conversavam tranquilamente na entrada do prédio. Um deles acaba por se aborrecer muito e diz, exaltado, para o outro em voz alta: “vai à merda”. A expressividade, sim ela existe, está na quebra de expectativa da fala até então processada, utilizado inesperadamente um palavrão, evitado, em geral, entre dois falantes que mantêm uma relação ainda algo formal.

 Observando a minha variedade de fala, sobretudo quando ela não está sendo monitorada, os palavrões podem ocorrer, se atropelam mesmo, como na situação de um torcedor assíduo de futebol assistindo a uma partida de seu time, torcendo nervosamente por ele. Não só quando presente a um estádio, mas também num grupo de colegas, em bares, ou no próprio recato de sua casa, ainda que estando sozinho.

Vivi, certa vez, uma situação estranha, cômica, eu diria. Morava num edifício de 10 andares, com dois apartamentos em cada. Já gostava de assistir aos jogos de futebol pela televisão, não perdendo uma partida em que meu clube jogasse. Já com meia idade, me valia, um dia ou outro de jogo, de palavrões. Não perdoava ninguém: jogadores, juízes e … os vizinhos. Janelas abertas, com o meu vozeirão, iam soltando nomes pesados socialmente. Acontece que outro morador, de outro andar, bem mais moço, entrando ainda na maior idade, torcia por um clube rival do meu, e soltava também seus palavrões. No prédio, era eu chamado de professor, sem ser conhecido pelo meu nome. A quem então atribuiriam os vizinhos a autoria daquelas palavras pesadas socialmente? Ao vizinho jovem, certamente. O professor não seria capaz de uma ação como esta. Imagina. Sujeito sério, educado. Pouco depois, caí em mim e me achei um irresponsável, faltando com o devido trato a pessoas, até amigas algumas. Ficou mais que evidente a relação entre o emprego do palavrão e a sua procedência. E o rapaz, coitado, sozinho, sendo responsabilizado por gritar termos que afrontavam uma conduta social condizente com a educação dos moradores vizinhos.” Um mau elemento”, me disse certo senhor, vizinho de porta.

Algumas vezes me encontrei frente a frente com o rapaz tão censurado. Cumprimentei-o educadamente, como sempre o fazia. Só não conversamos. Muito menos sobre futebol… Não se mostrava mal educado. Apenas o futebol é paixão, e esta, quando bate, não há limites sociais. Nem a idade conta, evidentemente.

Linguisticamente, os chamados palavrões constituem então uma linguagem especial no léxico de uma língua, com a função de manifestarem um estado emocional de exaltação em situações das mais diversas. Socialmente, enfatize-se, seu emprego é identificado como marca de má educação ou nível cultural elementar de quem o emprega, mormente com frequência, analisado sempre o contexto de sua ocorrência, na fala ou na escrita.