A escrita de crônica

         Ao escrever um livro de crônicas, longe estava de saber quantas surpresas me estavam reservadas. A escrita ensaística, a que pratiquei durante toda uma vida, me conduzia por caminhos bem outros. Nesta, o que se visa a compartilhar com os leitores, interessados em assimilar novos conteúdos, novos argumentos, novos métodos, em certo campo de estudo e de pesquisa, é o conhecimento interiorizado, sempre com consistente fundamentação. As consultas bibliográficas se fazem frequentes, demoradas tantas vezes, se sucedendo, emperrando a escrita, à espera de informações que devem se articular num todo organizado, coerente e atualizado. Redige-se, termo bem apropriado ao gênero ensaístico, com todo o rigor, pois, com recorrentes  citações, além de um zelo permanente com o emprego de uma linguagem   prestigiada, adequada a esta forma de discurso. Não pode  faltar, ainda, quase sempre, o recurso à separação em tópicos , capítulos ou não, sem falar no trabalho com o levantamento bibliográfico, segundo as normas mutantes da ABNT. E ainda as notas de rodapé ou no final do artigo, do capítulo, a depender da orientação editorial.

A criação ficcional me arrastou a um outro mundo, tanto na temática, quanto na linguagem. Muito mais livre passei a me sentir, sem saber, por isso mesmo, o resultado textual a que, em diversas situações, estava sendo conduzido. Isto mesmo, na passiva! Começava a escrevinhar sem um rumo, a devanear… Nem título da crônica me passava pela cabeça. O que, evocando uma mangueira, queria eu transmitir? Não sabia mesmo. Ao escrever é que, a partir de certo momento, iria começar a saber, mesmo assim sem vislumbrar o final da narrativa. No ensaio, o conhecimento precede a escrita; na ficção, o conhecimento vem com a escrita. De modo que há muito de estranhamento, também para o autor, no processo ficcional, o que o torna um fazer particularmente sedutor.

Ao estarmos cronista, aguça-se a atenção do ser observador que há em nós , como que se fica à espreita do que tem potencial ( uma conversa, um abraço, um filme…) para, se bem trabalhado, servir aos propósitos do cronista.

Mas a linguagem de que se vai valendo é um exercício que fascina , em que se saboreia, às vezes, palavra por palavra. Para quem escreve uma crônica- minha experiência narrativa para por aí- o barato está menos sobre o que se escreve, tantas vezes um episódio banal, porém muito mais no jogo linguageiro, que se manifesta através de recursos diversos. Posso sentir mais agora, como autor, a importância que assumem os comentários ou observações feitos a propósito das escolhas idiomáticas de que me vali na escrita das crônicas. Não é que perceberam minha intenção expressiva ao optar por tal ou qual seleção verbal ou construção sintática! – exclamo com indisfarçável alegria. A valorização da palavra se faz sentir fortemente quando se começa a adentrar no campo literário. Escrever passa a ser um exercício das virtualidades da linguagem, a busca de novos sentidos, de combinatórias lexicais inesperadas. Foi com que mais me deleitei na escrita das crônicas, agora reunidas em um livro.

A preocupação com a linguagem passa então a ser mesmo bem outra, manifestada desde o emprego dos sinais de pontuação. Se recorre mais às reticências, aos pontos de exclamação e interrogação, sinais mais conotados com a emotividade. Folheio, ao acaso, e vou anotando esta minha nova liberdade expressiva: o neto “ mergulhado lá em seu milk-shake”; “ Chegava, às vezes, a temer o meu carro agonizando em estado terminal!…”; “Gosto de shoppings menores. (…)Menos gente, mais   gente”; “Fui encaminhado a uma “personal” da voz”; “ Atualmente, com os meus médicos  mais que estáveis, garantidos por uma espécie de cláusula pétrea, ainda corro o risco, data venia, de ter contato com outros mais”. O certo é que , sem nos valermos de uma linguagem “outra”, ainda que não recorrendo à utilização de palavras e construções de variedades linguísticas menos prestigiadas socialmente, a narrativa, que se pretende literária, não alcança o seu intento estético. Mas a presença do coloquial, do popular, do marcadamente regional, exige sempre um trabalho de elaboração, de reflexão, sobre o emprego de recursos da língua a serem utilizados. Afinal, com que propósito expressivo se fizeram presentes? Uma vez usados, com a palavra o leitor.

2 Comentários

  1. Creso Magalhães
    dez 9, 2013

    Tirou o colarinho duro e o punhos engomados dos ensaios acadêmicos, vestiu uma camisa listrada e saiu por aí.
    E se lambuzou todo, claro, como se nota no texto.
    “Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.”
    (Clarice Lispector)

  2. Tânia Barros
    dez 9, 2013

    Para o escritor é um grande mistério a escrita ficcional. Prazer, angústia, descobertas, tantas! Quanto mais misteriosos os caminhos dessa escritura ainda mais deleite para o leitor. Muito feliz em tê-lo também como referência magistral nesta senda, Professor Uchôa!

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